“Black Girl”, o cinema negro de Ousmane Sembène A jornada de uma mulher que sonha em pertencer a si mesma

Diouana espera ansiosa no setor de desembarque do porto, onde é a única pessoa negra em meio ao turbilhão de viajantes. Sua gestualidade e vestimenta denotam intimidade com a forma de vida europeia. A história de Diouana, interpretada por Mbissine Thérèse Diop, é a jornada de muitas mulheres que, em busca de independência e melhores condições, dão um passo em direção ao desconhecido. O filme Black Girl (1966), de Ousmane Sembène, é considerado o primeiro filme da África Subsariana (abaixo do deserto do Saara, ou ainda, a África negra) a receber destaque na Europa e nos EUA, chegando até mesmo a render o prêmio Jean Vigo, dedicado a novos diretores, a Sembène.

Adotando a perspectiva de Diouana, o filme é contado através de cenas retrospectivas que, paralelas aos acontecimentos na cidade mediterrânea de Antibes, na França, mostra-nos o contexto que resultou na viagem de Diouana à Europa. Assim ficamos sabendo que ela foi escolhida por sua patroa nas ruas de Dakar, no Senegal, para cuidar de seus filhos, integrando assim um time extenso de serviçais. Tendo que voltar à Europa, Diouana é convidada a se juntar posteriormente à família. Com a chegada do patrão ao setor de desembarque, é findada a espera intranquila da babá. Suas primeiras impressões são extasiantes: ruas tomadas por conversíveis e senhoras da boa sociedade em seus vestidos charmosos. Nesse momento, os espectadores que assistem à versão recentemente restaurada da obra de Sembène, levam um choque: o filme gravado com negativo preto e branco em altissimo contraste, torna-se, por alguns minutos, colorido. A conversão repentina ao technicolor torna a experiência de Diouana palpável ao espectador. A orla do balneário mediterrâneo era o lugar mítico onde toda a riqueza do mundo desaguava. Era alí que Diouana, com toda sua beleza e ambição queria se banhar. Não demorou muito, no entanto, para que seu mundo voltasse a ser preto e branco de uma forma que ela mesma não podia esperar.

Janus Films – Black Girl – Trailer from Janus Films on Vimeo.

Black Girl é um retrato profundo da relação de exploração resultante de anos de colonização francesa no Senegal. Os aspectos sociais são evidentes, ao mostrar a pobreza da população urbana negra em contraste com a prosperidade dos moradores brancos de Dakar. Mas a riqueza crítica de Black Girl está na sua capacidade de atribuir profundidade psicológica à sua protagonista negra de uma forma pouco vista em filmes dirigidos por cineastas brancos. A felicidade de Diouana por ter conseguido “trabalho na casa dos brancos” evidencia o espaço subordinado que ela ocupa em sua própria sociedade. Em seu primeiro dia de trabalho, a babá presenteia seus patrões com uma máscara de madeira de seu povo, que logo é posta ao lado de outros objetos “exóticos”. Estaria Diouana renunciando à sua própria identidade? Esse argumento pode ser reforçado pela sua rápida adaptação aos padrões estéticos franceses, a partir do momento em que passa a usar roupas e calçados velhos de sua patroa.

Na cidade litorânea francesa a família ocupa um apartamento simples que contrasta com o luxo das acomodações no Senegal. A decepção de Diouana consiste na natureza de seu trabalho. Sendo a única empregada, ela se torna responsável por toda forma de serviço caseiro. A narração em off é praticamente o único momento no filme em que ouvimos a voz da protagonista. É através desse recurso que nos tornamos fiadores de seu lamento. Explorada por seus patrões, privada de suas fantasias e confinada no esquematismo de uma sociedade essencialmente individualista, Diouana se vê desprovida de ânimo e é qualificada como indolente pela “Madame”. O olhar clínico europeu se nega mais uma vez a atribuir aspectos subjetivos ao colonizado.

Em seu título original, o filme de Ousmane Sembène se chama “La Noire de…”, em português “a negra de…”. O nome evoca a condição de objetificação da mulher negra, fato exemplificado de forma cruel na cena em que um dos convidados dos patrões, após saciar-se com o jantar preparado por Diouana, pede que lhe apresentem a cozinheira. Em um momento de insensatez, movido pelo racismo típico de povos colonizadores, o senhor se aproxima da jovem e proclama “eu nunca beijei uma negra”, lançando um beijo na face de Diouana, que, sem reação, abriga-se na cozinha. A tristeza da protagonista se intensifica à medida em que, desumanizada, dá-se conta do verdadeiro papel que ocupa na sociedade francesa. A menina negra, assim como a máscara com a qual presenteou seus patrões, o exótico deslocado.

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