“Balikbayan”, as navegações pelo olhar do colonizado Kidlat Tahimik nos apresenta Henrique, o escravo que deu a volta ao mundo

E se o primeiro viajante a dar a volta ao mundo fosse um escravo filipino? Essa hipótese se torna real no filme de Kidlat Tahimik Balikbayan #1 Memories of Overdevelopment Redux III (“Memórias do Superdesenvolvimento”, 2015). O filme conta a história de Henrique de Malacca, o escravo filipino do navegador português Fernão de Magalhães, reconhecido por tentar realizar entre 1519 e 1522 a primeira viagem de circum-navegação ao globo, tendo morrido em combate com os nativos da ilha de Mactan antes de atingir seu objetivo. Seu escravo, no entanto, voltou à ilha onde fora comprado, completando assim a jornada ao redor do mundo através de uma perspectiva não-eurocêntrica.

O primeiro contato de Tahimik com o cinema foi como figurante no filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (1974), de Werner Herzog. O diretor filipino nutriu uma grande amizade com Herzog durante o período em que morou em Munique, sendo aconselhado por ele durante a produção de seu primeiro filme, “Perfumed Nightmare” (O pesadelo perfumado, 1977), que teve sua première na Berlinale, principal festival de cinema alemão. Em seu debut, Tahimik interpreta um motorista de Jeepney, principal forma de transporte público nas Filipinas, que sonha em se tornar astronauta nos Estados Unidos. Após décadas, o diretor volta à Berlinale em 2015, onde é premiado com o troféu Caligari pelo filme que levou, pasmem, 35 anos (!) para ficar pronto.

Kidlat Tahimik opera o “fazer cinema” de uma forma um tanto especial: lento e inconclusivo. Além disso, o diretor filipino costuma atuar em seus próprios filmes, o que confere a todos eles um caráter autobiográfico. Em Balikbayan ele assume o papel do escravo Henrique de Malacca e narra a história através de OFF em primeira pessoa como o próprio Henrique e, em outros momentos, na voz do diretor, explicando ao público as cenas que, mesmo constando no roteiro, por algum infortúnio não puderam ser gravadas. O filme é uma grande colcha de retalhos, com as cenas da primeira fase de gravação em 16mm, misturadas a uma história contemporânea gravada com tecnologia digital, cuja qualidade de imagem difere em muito das cenas em película.

Balikbayan é um épico terceiro mundista que transforma a deficiência em relação ao grande cinema em sua potência. A obra de Tahimik dialoga com o passado colonial filipino e com as consequências de séculos de exploração. Para quem não sabe, as Filipinas foram durante cerca de 300 anos colônia espanhola. Findado esse período, o arquipélago sofreu mais 48 anos sob o domínio norteamericano. Kidlat Tahimik se opõe ao legado cultural hollywoodiano, em que, segundo ele mesmo, cada frame é novidade. Em uma palestra a alunos de cinema durante a primeira mostra dedicada ao diretor realizada em Berlim, em 2016, Tahimik confessou reciclar sua própria obra. Por isso é comum que as mesmas cenas emerjam em diferentes momentos de sua filmografia. Por ser um filme em progresso – a versão exibida na Berlinale foi a terceira montagem do material realizada nesses 35 anos – Balikbayan pode ser visto como uma reflexão sobre o próprio fazer fílmico.

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